Arquivo da categoria ‘Fotógrafos

A fotografia entre experimentações poéticas e proposições políticas   Leave a comment

Ciclo de Fotografia - Olhares Intensos

Ciclo de Fotografia – Olhares Intensos

no Centro de Pesquisa e Formação do SESC São Paulo

Programa

Ciclo dedicado à apresentação de quatro diferentes processos de documentação e experimentação fotográfica, desenvolvidos a partir dos trabalhos de Luiz Braga, Eustáquio Neves, Paula Trope, Barbara Wagner e Benjamin de Burca, que concebem distintas formas de leitura e compreensão da realidade histórica, social e cultural brasileira.

Os encontros buscam proporcionar um diálogo entre proposições visuais e poéticas que marcam produções fotográficas radicalmente singulares e intensas.

Desta forma, o ciclo tem por objetivo colocar em discussão as concepções estéticas e políticas que moldam a definição dos aspectos artísticos e documentais registrados pelos trabalhos destes artistas.

17/07 – Memória do Filme: o Trânsito entre Mídias
Desde o final da década de 1980 Eustáquio Neves pesquisa e desenvolve técnicas alternativas e multidisciplinares, manipulando negativos e cópias. Nos últimos cinco anos têm pesquisado as mídias eletrônicas incluindo a sequência e o movimento. Entre outras linhas de interesse aborda temáticas relativas à identidade e a memória da cultura afrodescendente com trabalhos de corte social e crítico, que muitas vezes nos levam a diversos níveis de leituras. Seu trabalho vem sendo amplamente divulgado em várias mostras no Brasil, exterior e tem recebido prêmios e a consagração do público e da crítica.
Com Eustáquio Neves.

24/7 – Percurso do Olhar
As primeiras exposições de Luiz Braga (1979 e 1980) eram compostas de cenas de dança, nus, arquitetura e retratos. Após essa fase, descobre as cores vibrantes da visualidade popular da Amazônia e viaja pela região aprofundando sua pesquisa sobre as cores do universo da periferia. Sua abordagem passa ao largo das visões estereotipadas e superficiais sobre a região e junto com o domínio da cor o transformaram em referência na fotografia brasileira contemporânea.
Com Luiz Braga.

31/7 – Pequenas Histórias dentro da História
Artista visual com ênfase de atuação em Arte Contemporânea, Paula Trope desde o início da década de 90 desenvolve trabalho experimental no campo da imagem técnica, com cinema, fotografia e vídeo. Em suas pesquisas, assume uma postura crítica em relação à própria câmera e à prática artística, estabelecendo complexas relações entre o meio utilizado e os temas e conteúdos enfocados, considerando as características técnicas, formais e institucionais envolvidas.
Com Paula Trope.

7/8 – Terreiro, Palco, Altar: o corpo e a câmera em “Faz que Vai” (2015), “Estás vendo Coisas” (2016) e “Terremoto Santo” (2017)
Nas três obras mais recentes realizadas pela fotógrafa Bárbara Wagner e o artista Benjamin de Burca, novas formas de trabalho são desempenhadas por jovens dançarinos de Frevo, mc’s de Brega e cantores de Gospel, cujos corpos resultam, eles mesmos, através do esforço investido em suas performances, em imagens e vozes produzidos e reproduzidos dentro de uma economia do espetáculo. Nos três casos, é na combustão laboriosa desses corpos que o desejo se torna moeda de troca numa cultura que privilegia o sucesso individual aqui e agora.
Com Bárbara Wagner e Benjamin de Burca.

As inscrições pela internet podem ser realizadas até um dia antes do início da atividade. Após esse período, caso ainda haja vagas, é possível se inscrever pessoalmente em todas as unidades. Após o início da atividade não é possível realizar inscrição.

Condições especiais de atendimento, como tradução em libras, devem ser informadas por email ou telefone, com até 48 horas de antecedência do início da atividade.
centrodepesquisaeformacao@sescsp.org.br / 11 3254-5600

(Foto: Divulgação)

Palestrantes

Eustáquio Neves

Eustáquio Neves

Fotógrafo e vídeoartista autodidata nascido em Juatuba (MG). Graduou-se em química. Vive e trabalha em Diamantina (MG).
(Foto: Acervo Pessoal)

 

Luiz Braga

Luiz Braga

Nasceu, vive e trabalha em Belém (PA). Graduou-se em Arquitetura. Trabalha com fotografia desde 1975.
(Foto: Elaine Braga)

 

Paula Trope

Paula Trope

Vive e trabalha no Rio de Janeiro (RJ). Mestre em Técnicas e Poéticas em Imagem e Som pela USP e doutoranda em História e Crítica da Arte pela UERJ.
(Foto: Fernanda Magalhães)

 

Bárbara Wagner e Benjamin de Burca

Bárbara Wagner e Benjamin de Burca

Vivem em Recife. Desde 2011, a dupla usa videoensaios, fotopesquisas e entrevistas para abordar temas como a mercantilização das práticas coletivas tradicionais e a folclorização da cultura pop nas economias emergentes.
(Foto: Divulgação)

fonte: https://centrodepesquisaeformacao.sescsp.org.br/atividade/ciclo-de-fotografia-olhares-intensos?nocache=1034174536
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Instantes Cruzados em oito episódios começa dia 12 junho!   Leave a comment

Instantes Cruzados Milton Guran

Em oito episódios semanais, Milton Guran fará um passeio pela fotografia brasileira em companhia de Ana Carolina Fernandes, Francisco Moreira da Costa, Helena de Barros, João Roberto Ripper, Luiz Baltar, Márcia Foletto, Roger Cipó e Tatiana Altberg com o coletivo Mão na Lata.

Instantes Cruzados estreia a partir do dia 12 de junho no Canal Curta, todas as terças-feiras, 23h30min.

Lançamento para a imprensa e os amigos dia 05 de junho, às 11h, no IMS – Instituto Moreira Salles do Rio.

Eustáquio Neves e sua série “Memória do filme” nas palavras de Eder Chiodetto   Leave a comment

Eustáquio-Neves

Entre cataclismos, estilhaços e desassossegos

 

O torvelinho de tempos sobrepostos que justapõe a memória errática conflagrada na trama fotográfica, a matéria histórica vista em perspectiva e os abismos dos afetos, são motores que impulsionam a fotografia experimental e visceral do artista Eustáquio Neves.

Com a propriedade de um alquimista que se enclausura no laboratório para transmutar o efeito dos agentes químicos e a intuição do artista que provoca e se farta dos acasos que os caminhos heterodoxos de sua pesquisa propiciam, Eustáquio caminha no sentido de provocar explosões no interior da linguagem.

Nos quase 30 anos que distam as primeiras produções do artista até a série Memória do Filme (2018), presente nesta mostra, percebemos como as estratégias do artista seguem no firme propósito de dotar as imagens de uma intrincada espessura, no lugar de pensá-las como superfície.

Colagem de imagens, inserção de textos, apagamento das fronteiras entre elementos distintos, granulação, tintas, “cicatrizes” resultantes de sucessivas agressões aos originais e vestígios de documentos, por exemplo, promovem uma espécie de cataclismos internos a partir dos quais essas complexas imagens abdicam do relevo em nome de uma profundidade do campo espectral pela qual nossa percepção visual é levada a um percurso quase hipnótico.

Se, como é sabido, toda fotografia é um território que tensiona o tempo ao fazer o passado ressurgir num presente imediato, a obra de Eustáquio parece nos alertar para a falha da promessa do jogo fotográfico em fazer emergir sem fissuras, e de forma insubmissa, esse tempo pretérito cristalizado nas superfícies das fotografias. Suas imagens, portanto, revogam a condição de testemunhas oculares de um determinado evento para se consagrarem como um relicário de tessituras acumuladas na experiência ancestral de um artista que se percebe como um agente histórico do seu tempo.

Na série Objetização do Corpo (1999), em que o artista irá abordar o difícil tema das mulheres escravas que eram abusadas sexualmente pelos seus proprietários, as figuras femininas centrais surgem consteladas por uma miríade de símbolos e vestígios semi-apagados que remontam o imemorial do tempo. O tempo histórico surge dilapidado na representação iconográfica a despeito da dor e dos murmúrios abafados que essas imagens ensejam. Abrandadas por uma luz de natureza tortuosa, a dissipação entre figura e fundo engolfa-se para alastrar-se nos contornos de formas vertiginosas. Metáfora da amnésia social que se arrasta na sociedade e que percebemos na herança maldita da intolerância que o tom da pele negra ainda desperta.

Os fundamentos histórico-sociais que o artista aborda em suas séries, ganham assim uma bem vinda abordagem filosófica e reflexiva. Entre o assombro diante de temas recorrentes como a escravidão, a intolerância, o abuso da mulher, o artista também sintetiza de forma pontual a crise da imagem no mundo contemporâneo. Os jogos do claro-escuro, o embate de texturas que por vezes cintilam o êxtase e em outros momentos anunciam o ocaso das paixões revelando fossos abertos às trevas, convertem-se em estilhaços de tempos revolvidos. Ao organizar os labirintos do plano espesso de suas composições, Eustáquio constrói novas relações simbólicas entre os elementos de sua história pessoal e familiar que alcançam a visão do êxtase no seu mágico laboratório de experimentações.

Memórias são estilhaços que a fotografia tenta em vão restaurar, enquanto o artista sorrateiramente escreve poemas visuais reunindo acasos, desassossegos e os desvãos da matéria orgânica e fotográfica que habita seu território especular.

 

Eder Chiodetto é jornalista, fotógrafo, curador e crítico de fotografia.

fonte: aboutlightbloghttps://aboutlightblog.wordpress.com/2018/04/25/eder-chiodetto-escreve-sobre-memoria-do-filme-de-eustaquio-neves/

A vida de grandes fotógrafos e a arte da fotografia -documentários online e gratuitos!   Leave a comment

Olhem que maravilha, vários documentários interessantes de fotógrafos, tudo online e gratuito. Aproveitem!!!

Documentários fotográficos

1) A fotografia oculta de Vivian Meier:https://goo.gl/NxFBVw
2) Robert Capa, no amor e na guerra:https://goo.gl/P6GqYC
3) Ansel Adams – https://goo.gl/rOv861
4) Close Up, Parte 1 : https://goo.gl/WOFHC6 e Parte 2: https://goo.gl/2nrzAt
5) Só amor, Henri Cartier-Bresson,:https://goo.gl/jmjEcI
6) Iluminados: goo.gl/wxZSW2
7) Sebastião Salgado: goo.gl/TxNS1J
8) Luz escura, A arte dos fotógrafos cegos:https://goo.gl/EHZIx3
9) The Woodmans, Francesca Woodman:https://goo.gl/iccFlK
10) Câmera Viajante e a verdadeira fotografia:https://goo.gl/GzHNdJ

E só pra dar um brinde, Janela da Alma:https://goo.gl/3t7QFO

— com Jânio Marques Dias,Inaiá Carneiro, Mônica Helena Fidelis, Leila Cristina, Ana Rosa, Marta Martins e Adriana Riquena da Costa.

fonte: postado por Alma de Fotógrafo em rede social

Quando a fotografia também é um ritual…   Leave a comment

Esse vídeo me chegou através do Miguel Chikaoka em uma publicação em rede social. E me alimentou a alma.

Todo esse ritual, esse lidar com um tempo diferente, esse buscar algo mais, também encontro na cianotipia e sim, isso alimenta minha alma.

Compartilho com vocês…

Fonte: Postagem de Miguel Chikaoka em rede social

A João Guimarães Rosa: fotografias de Maureen Bisilliat   Leave a comment

“Vou lhe falar. Lhe falo do sertão. Do que não sei. Um grande sertão! Não sei. Ninguém ainda não sabe. Só umas raríssimas pessoas.” 

João Guimarães Rosa, no livro ‘Grande Sertão: Veredas’. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, p. 100.

Boiada nos campos de Curvelo, MG, no início da viagem aos gerais. 1963-1967
foto: © Maureen Bisilliat – Acervo IMS

 

“O querer-bem da gente se despedindo feito um riso e soluço, nesse meio de vida.”

João Guimarães Rosa, no livro ‘Grande Sertão: Veredas’. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, p. 583.

Extraindo o polvilho da mandioca, perto de Janurária, MG.1962-1966
foto: © Maureen Bisilliat – Acervo IMS

 

“Travessia perigosa, mas é a da vida.”

João Guimarães Rosa, no livro ‘Grande Sertão: Veredas’. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, p. 542.
Cruzando rio ao pé da Serra das Araras, c. 1966. Próximo a Montes Claros, MG.
foto: © Maureen Bisilliat – Acervo IMS

 

“Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.”

João Guimarães Rosa, no livro ‘Grande Sertão: Veredas’.  Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

Menino perto de forno para queima de carvão de lenha
foto: © Maureen Bisilliat – Acervo IMS

 


“É o que eu digo, se for… Existe é homem humano.”

João Guimarães Rosa, no livro ‘Grande Sertão: Veredas’. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, p. 608.

Habitantes dos campos perto de Lassance. MG, 1963-1967
foto: © Maureen Bisilliat – Acervo IMS

“Agora, que o senhor ouviu, perguntas faço. Por que foi que eu precisei de encontrar aquele Menino? Toleima, eu sei. Dou, de. O senhor não me responda.”
João Guimarães Rosa, no livro ‘Grande Sertão: Veredas’. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, p. 109.
Habitantes dos campos perto de Lassance. MG, 1963-1967
foto: © Maureen Bisilliat – Acervo IMS


“Tudo em mim, minha coragem: minha pessoa, a sombra de meu corpo no chão, meu vulto. O que eu pensei forte, as mil vezes: que eu queria que se vencesse; e queria quieto: feito uma árvore de toda altura!”

João Guimarães Rosa, no livro ‘Grande Sertão: Veredas’. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, p. 555.

Retrato de Manuel Nardi, inspirador do conto ‘Manuelzão e
Miguilim’, de Guimarães Rosa, Andrequicé, MG. 1966.
foto: © Maureen Bisilliat – Acervo IMS

 

“Sertão velho de idades. Porque serra pede serra e dessas, altas, é que o senhor vê bem: como é que o sertão vem e volta. Não adianta se dar as costas. Ele beira aqui, e vai beirar outros lugares, tão distantes. Rumor dele se escuta. “

João Guimarães Rosa, no livro ‘Grande Sertão: Veredas’. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006,p. 542.

Gente de Andrequicé, Minas Gerais.
foto: © Maureen Bisilliat – Acervo IMS


“Sertão que se alteia e se abaixa. Mas que as curvas dos campos estendem sempre para mais longe. Ali envelhece vento.”

João Guimarães Rosa, no livro ‘Grande Sertão: Veredas’. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, p. 542.
A João Guimarães Rosa. foto: © Maureen Bisilliat|Acervo IMS

 

 

“Um espaço para os de meia-razão.”

João Guimarães Rosa, no livro ‘Grande Sertão: Veredas’. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, p. 314.

A João Guimarães Rosa. foto: © Maureen Bisilliat|Acervo IMS

 

 
“A gente principia as coisas, no não saber porque, e desde aí perde o poder de continuação — porque a vida é mutirão de todos, pôr todos remexida e temperada. Sertão. O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado!”

João Guimarães Rosa, no livro ‘Grande Sertão: Veredas’. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

A João Guimarães Rosa. foto: © Maureen Bisilliat|Acervo IMS

 

“A culpa minha, maior, era meu costume de curiosidades de coração. Isso de estimar os outros, muito ligeiro, defeito esse que me entorpecia.”

 

João Guimarães Rosa, no livro ‘Grande Sertão: Veredas’. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

 

“escrever com a imagem e ver com a palavra.”

Maureen Bisilliat

 

A JOÃO GUIMARÃES ROSA

A Joaõ Guimarães Rosa, de Maureen Bisilliat

– por Maureen Bisilliat (IMS – Séries | 24.9.2013)

Voltas no tempo ‘A João Guimarães Rosa’
Tudo começou em 1963, quando ganhei de um amigo um exemplar de Grande sertão: Veredas, de Guimarães Rosa – não sem a observação de que talvez não conseguisse compreender a linguagem especialíssima do autor. Não só compreendi como mergulhei nas águas daquele mar de palavras – o sertão não viraria mar? -, inspirada e instigada a investigar a relação direta de Rosa com os gerais de Minas Gerais. Assim, durante os anos 60 viajei por essas terras seguindo um roteiro sugerido pelo autor, iniciando pelas raízes – Curvelo, Cordisburgo, Andrequicé -, subindo pelo tronco da árvore, expandindo pelos galhos, até chegar em Januária, no norte de Minas. Desloquei-me para lá e, ao voltar de cada viagem, ia visitar o escritor, então chefe do Serviço de Demarcação de Fronteiras do Itamaraty. Levava, a cada encontro, um calhamaço de fotografias captadas nas terras do autor de Sagarana e, atrás de cada uma, ele anotava detalhes – nome, idade, solteiro, casado ou viúvo, lugar de encontro, como e quando etc. -, recebendo através das imagens mensagens dos gerais. No final de nossas reuniões, ele sempre me acompanhava até o elevador e me desejava uma boa próxima viagem, dizendo estar certo de que eu, como irlandesa, iria compreender os eflúvios poéticos dos gerais, devido à semelhança entre aquela região e a Irlanda (“Irlandesa Cigana” foi, aliás, como ele me apelidou, teria ele entrevisto alguma ancestralidade cigana nos meus cabelos longos, roupas amplas, sandálias no pé?).
Anos depois desses nossos encontros, fui visitar sua viúva, Dona Aracy, no prédio onde eles tinham morado em Copacabana, Posto 6. Lá, ela me levou até uma pequena sala, entre os rochedos e o mar, e contou que fora ali que Rosa escrevera seu Grande sertão. “Noite após noite”, confidenciou-me, “eu levava para ele duas ou três trocas de pijama, pois enquanto escrevia transpirava muito, banhando-se em suor. Ele me dizia que recebia a obra assoprada, sendo ele apenas receptor”.

Andrequicé, 1966

Maureen Bisilliat e a exposição “A João Guimarães Rosa”

Porta de entrada para os gerais de Guimarães, companheiro de viagem de Manuelzão – Manuel Nardi, vaqueiro-mor, personagem central de uma das novelas de Corpo de Baile: “Miguilim e Manuelzão”, do ali lembrado escritor João Guimarães Rosa.

Comecei a conhecer os sertões por suas veredas. Iniciei minha busca seguindo de ônibus para Minas, parando primeiro em Cordisburgo, lugar de nascimento do autor, prosseguindo rumo ao norte e chegando em Andrequicé, povoado pequeno, pouso na rota das boiadas pelos sertões. Ao chegar, o sol se escondendo no horizonte, acerquei-me de um pequeno boteco e, após me apresentar como alguém em busca dos rastros de Guimarães, fui acolhida com uma boa notícia: “A moça está com sorte, pois não é que chegou agorinha mesmo o Manuelzão do Rosa, vindo direto da fazenda para uma celebração de crisma em Andrequicé!” Sim, o próprio Manuel Nardi, inspirador do conto “Manuelzão e Miguilim”, publicado em 1956, como parte do livro Corpo de baile: um bom augúrio para a busca planejada!
Indaguei acerca de um lugar para pernoitar e o moço do boteco me levou à casa de uma velha senhora que me recebeu com a acolhida espontânea e ampla dos que pouco têm, mas muito oferecem: ovo frito, saborosa farofa e um café mineiro, doce, perfumado e ralo, daqueles que descem como água benta apaziguando a sede!
Dormi com a candeia acesa, a esteira no chão. Acordei cedo, o sol despontando no horizonte, no friozinho da madrugada. E lá estava ele, Manuelzão, sombra esguia na parede caiada, chapéu de abas firmes, capa de feltro azul, rosto de couro curtido, olhar de águia me aguardando sem prosa, pronto para o retrato que viria a ser – para mim e para muitos – emblemático da estirpe rija dos gerais de Guimarães. De repente, me olhando a esmo, deparei com a figura de um homem – um vaqueiro, talvez? Pedi licença para tirar o seu retrato. Sisudo e cismado, ele não quis me atender. Satisfeita com a sorte, feliz da vida, com Manuelzão na máquina, passei o dia fotografando boiadas na poeira do campo. No fim do dia, de volta para Andrequicé, avistei a figura do homem, lá me esperando, calmo e quieto, no aguardo de seu retrato: era isso que ele queria ter. Acontece que de manhã, quando me viu pela primeira vez, ficou com medo. Por ser cigano achou que eu era da polícia e estava lá para prendê-lo. Era isso, então. Como os romas da França de Sarkozy, os ciganos dos gerais também são malvistos, estigmatizados como gatunos e ladrões de cavalos, vítimas de velhos preconceitos encravados na contramão da história, levando a guerras e desentendimentos entre nações!
:: Fonte: IMS (acessado em 22.6.2016)

BIOGRAFIA DE MAUREEN BISILLIAT

Maureen Bisilliat – foto: Juan Esteves

A inglesa Sheila Maureen Bisilliat(Englefieldgreen, Surrey, Inglaterra 1931), construiu desde os anos 1950, quando se mudou para o Brasil, um dos mais sólidos trabalhos de investigação fotográfica da alma brasileira, aliando a seu olhar de estrangeira um respeito profundo por seus temas – sobretudo sertanejos e índios – e a busca de apoio conceitual na antropologia e em grandes obras da literatura nacional. Desde dezembro de 2003, sua obra completa está incorporada ao acervo do Instituto Moreira Salles, num total de 16.251 imagens, entre fotografias, negativos em preto e branco e cromos coloridos.
Filha de um diplomata argentino e de uma pintora inglesa, Maureen viveu uma infância itinerante entre Inglaterra, Estados Unidos, Dinamarca, Colômbia, Argentina e Suíça. Esse desenraizamento cultural, apontado por ela mesma, começou a terminar quando, em 1953, mudou-se para São Paulo em companhia do fotógrafo espanhol José Antonio Carbonell, seu primeiro marido. Estudante de pintura desde o ano anterior, começou a se interessar por fotografia por influência de Carbonell, realizando seus primeiros experimentos tendo como modelos imigrantes japoneses de uma plantação de algodão no interior de São Paulo.
Após algumas temporadas no exterior – em Paris, em 1955, onde estudou pintura com André Lhote; em Nova York, dois anos depois, para frequentar o Arts Students League; e na Venezuela, em 1959, onde trabalhou como telefonista – Maureen retornou ao Brasil e, já separada de Carbonell, começou a se dedicar mais intensamente à fotografia, terminando por abandonar a pintura. Desta, porém, restou seu fascínio expressionista pelo claro-escuro e pelos enquadramentos surpreendentes.
A globe-trotter estava prestes a finalmente fixar raízes. Data de 1960 seu primeiro contato com Jorge Amado, que lhe inspirou a ideia de realizar um trabalho de “equivalência fotográfica” sobre obras literárias nacionais. Poucos anos depois, ao percorrer o sertão de Minas Gerais em busca de imagens que dialogassem com Grande sertão: veredas, obra-prima de Guimarães Rosa, Maureen já tinha se naturalizado brasileira.
De 1964 a 1972, fotojornalista contratada da Editora Abril, realizou para revistas como Realidade e Quatro Rodas ensaios que ficaram célebres, entre eles “A batucada dos bambas”, sobre o samba tradicional carioca, e “Caranguejeiras”, retratando mulheres catadoras de caranguejos na aldeia paraibana de Livramento. Paralelamente, dava prosseguimento a suas “equivalências fotográficas” com a literatura, que entre os anos 1960 e 1990 publicaria numa série de livros importantes. Além de Rosa e Amado, travou diálogos com as obras de Euclides da Cunha, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna, Adélia Prado e Mário de Andrade, este a inspiração para o ensaio que expôs numa sala especial da XVIII Bienal de São Paulo, em 1985, baseado no livro O turista aprendiz.
Editora incansável de sua própria obra, Maureen lançou ainda dois volumes notáveis sobre o Parque Nacional do Xingu, ambos chamados Xingu, com os subtítulos Detalhes de uma cultura (1978) e Território tribal (1979). Também sobre a região, que visitou diversas vezes, codirigiu com Lúcio Kodato o documentário de longa-metragem Xingu/terra. A paixão pelo vídeo passou a absorvê-la cada vez mais a partir dos anos 1980, mas, nos anos 1990, Maureen ainda publicou livros com ensaios fotográficos de viagens à África, ao Líbano e ao Japão.
Em 1988, com Jacques Bisilliat, seu marido, e Antônio Marcos da Silva, foi convidada por Darcy Ribeiro para montar o acervo de arte popular latino-americana, origem do Pavilhão da Criatividade da Fundação Memorial da América Latina. Foi curadora do espaço de sua criação até 2011.
Em 2009, o IMS lançou a exposição e o livro Fotografias, uma visão panorâmica de sua carreira, com participação da própria Maureen Bisilliat na curadoria.
:: Fonte: IMS – biografia Maureen Bisilliat (acessado em 22.6.2016)

OBRAS DE MAUREEN BISILLIAT

:: Fim de rumo, terras altas, Urucúia; ensaio fotográfico de Maureen Bisilliat. [Fragmentos extraídos de Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa]. 1ª ed., cor. São Paulo: Gráficos Brunner, 1969.
:: A João Guimarães Rosa. [fotografia Maureen Bisilliat; textos João Guimarães Rosa]. São Paulo: Gráficos Brunner, 1969; 3ª ed., 1979.
:: Fotografias: Maureen Bisilliat. São Paulo, SP: Instituto Moreira Salles, 2009.

OUTRAS FONTES E REFERÊNCIAS DE PESQUISA
:: BOZIO, Maria Catarina Rabelo. O sertão imagético de João Guimarâes Rosa e Maureen Bisilliat: dez descrições. (Monografia Graduação em Estudos da Linguagem). Universidade Estadual de Campinas, UNICAMP, 2012. Disponível no link. (acessado em 22.6.2016)
:: Itaú Cultural – biografia (acessado em 22.6.2016).

JOÃO GUIMARÃES ROSA NESTE SITE

© Direitos reservados aos herdeiros JGR/ e a autora

© Pesquisa, seleção e organização: Elfi Kürten Fenske

 

Jacques Henri Lartigue: o cotidiano francês no século 20   Leave a comment

 

Desde 1902, quando tinha oito anos de idade, até sua morte em 1986, Jacques Henri Lartigue manteve uma prolífica produção fotográfica, retratando o cotidiano francês em momentos variados que começam nas últimas décadas da Belle Époque e passam pelas transformações vividas na Europa ao longo do século 20. Sua notoriedade como fotógrafo, no entanto, foi constituída somente a partir dos anos 1950. No post de hoje, resgatamos sua trajetória.

 

 

 

 

Na infância, Lartigue fotografava desde viagens familiares até eventos esportivos da elite francesa. Carros, aviação e as invenções de seu irmão Maurice também eram temáticas frequentes da produção inicial do fotógrafo. À medida que crescia, Lartigue foi experimentando outras linguagens, como o desenho e a pintura, chegando a estudar por um breve período na Académie Julian, em Paris.

 

 

 

 

Foi com a pintura que Lartigue ganhou a vida nos turbulentos anos 1930 e 1940 na Europa. Na década de 1950, já com uma vasta trajetória como amador, a fotografia passou a lhe render os primeiros frutos profissionais. Seu nome ganhou reconhecimento internacional, no entanto, somente na década seguinte, após uma viagem para os Estados Unidos.

 

 

 

 

Com sua terceira esposa, em 1962, Lartigue foi a Los Angeles em um navio cargueiro. No caminho, visitou Nova York, onde encontrou-se com Charles Rado, fundador da agência Rapho, e John Szakowski, recém-empossado diretor do departamento de fotografia do MoMA. Impressionado com as imagens de Lartigue, Szakowski organizaria no ano seguinte uma exposição do fotógrafo – a primeira de Lartigue, que em 1963 completava 69 anos. A guinada ganhou ainda mais força após a publicação de uma foto sua na revista Life, em edição especial sobre a morte de John F. Kennedy.

 

 

 

 

Entre as principais exposições que se seguiram, destaque para a retrospectiva realizada em 1975 pelo Musée des Arts Décoratifs de Paris e para a mostra Bonjour Monsieur Lartigue, que ocupou o Grand Palais da capital francesa em 1980. Lartigue seguiu fotografando, pintando e escrevendo até falecer em 1986, em Nice, aos 92 anos. Como legado, deixou ao redor de 100 mil fotografias, sete mil páginas de diários e 1.500 pinturas.

Fonte: ESPM – http://foto.espm.br/index.php/referencias/jacques-henri-lartigue-o-cotidiano-frances-no-seculo-20/
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