Arquivo da categoria ‘História

Dia 11 de fevereiro, aniversário de William Fox-Talbot!   Leave a comment

300px-William_Henry_Fox_Talbot,_by_John_Moffat,_1864

Nascido em 11 de fevereiro de 1800, Talbot usava a câmera escura para desenhos em suas viagens. Homem bastante discreto e de múltiplos conhecimentos, ele foi um dos importantes pioneiros da fotografia, pesquisando a fixação da imagem da câmera escura desde 1834.

Começou suas pesquisas fotográficas tentando obter cópias por contato de silhuetas de folhas, plumas, rendas e outros objetos, mas em 1835 construiu uma pequena câmera de madeira – 6,30 cm², chamada por sua esposa de “ratoeira” – iniciando aí o processo negativo/positivo.

Ele colocava papel de cloreto de prata na câmera e após um longo tempo de exposição – entre meia e uma hora – a imagem negativa era fixada em sal de cozinha e submetida a um contato com outro papel sensível.

Surgia o processo pai dos filmes negativos. A imagem mais conhecida é a da janela da biblioteca de Abadia de Locock Abbey, considerada a primeira fotografia obtida dessa forma.

Talbot publicou The Pencil of Nature entre 1844 e 1846, o primeiro livro comercial ilustrado com fotografias, depois de Anna Atkins, que lançou em 1843 o Photographs of British Algae: Cyanotype Impressions.

Anúncios

Em 2016 o Dia Mundial da Cianotipia é em 24 de setembro!   Leave a comment

Inquietações levaram cientistas de diferentes áreas a se debruçar e descobrir simultaneamente em diferentes partes do mundo como fixar uma imagem formada a partir de reações químicas provocadas pela luz em um suporte minimamente duradouro.

O descobridor da cianotipia, o inglês Sir John Frederick William Herschel, cientista e astrônomo que tinha múltiplos interesses investigativos trouxe à luz a impressão em azul apenas três anos depois de Talbot e Daguerre terem anunciado seus inventos.

engraved-portrait-of-a-young-woman-john-herschel-2

Retrato de uma jovem mulher impresso em cianotipia por  Sir John William Herschel, 1842 –  Mede 10.20 x 07.8 cm

Diferente de várias pesquisas que já vinham sendo feitas em torno dos sais de prata, Herschel, após conduzir diversas investigações neste sentido – memorandos dele revelam que em fevereiro de 1840 havia realizado cerca de setecentos experimentos usando sais de prata – desenvolveu estudos abrangendo outros compostos de metais sensíveis à luz.

E descobriu em 1842 que o Ferricianeto de Potássio (K3Fe(CN)6) e o Citrato de Ferro Amoniacal  (C6H11FeNO7), solúveis em água, quando expostos à luz solar, formavam o químico também conhecido como Cianótipo, Ferroprussiato e Blueprint, de coloração azul da Prússia – corante usado no tingimento dos tecidos dos uniformes militares prussianos, daí o nome.

As fontes primárias sobre as investigações de Sir John são as suas notas manuscritas experimentais, memorandos, e impressões de teste, e seus trabalhos científicos publicados a partir deles. Cadernos experimentais de Herschel estão na Biblioteca do Science Museum de Londres e alguns documentos originais estão no Humanidades Research Center – HRC -, da Universidade do Texas em Austin. A correspondência de Herschel, em conjunto com os projetos de seus artigos publicados e algumas impressões de teste são mantidos na biblioteca da Royal Society, em Londres.

Apesar da cianotipia não sido tão popular, provou ser dos métodos de impressão fotográfica mais permanentes. Existem exemplares de cianotipias de Herschel desde 1842. A maioria ainda estão na Grã-Bretanha, dividida entre a coleção do National Media Museum – antes chamado National Museum of Photography, Film and Television -, localizado em Bradford e no The Museum of the History of Science na Universidade de Oxford, ambos na Inglaterra. E algumas das gravuras de amostras descritas em memorando estão no HRC.

Um ano após a descoberta da cianotipia temos um marco na história da fotografia. A botânica inglesa Anna Atkins  utilizou o recém descoberto processo do cianótipo e criou o primeiro livro a ser impresso e ilustrado fotograficamente – Photographs of British Algae: Cyanotype Impressions -, publicado em fascículos a partir de 1843.

E demonstra que o meio da fotografia poderia ser cientificamente útil e esteticamente belo.

Desde a década de 1960 a Cianotipia tem sido bastante utilizada por artistas que empregam a fotografia como forma de expressão.

anna_atkins_algae_cyanotype

Cianotipia em fotograma de Atkins que está no primeiro fascículo do Photographs of British Algae Cyanotype Impressions

Revelan fotos en plantas utilizando sus pigmentos naturales   Leave a comment

Un fotógrafo uruguayo utilizó a la naturaleza para revelar sus fotos: hojas de plantas y pétalos que a través de los rayos del sol imprimieron las imágenes con su clorofila y pigmentos naturales.

Por Matilde Moyano

Taco de reina, tabaco, hiedra, zarzamora, paraíso, oreja de elefante, y hasta perejil son solo algunas de las plantas que utilizó un fotógrafo uruguayo para revelar las fotografías que le sacó a su hijo.

Federico Ruiz Santesteban decidió recurrir a una antigua técnica que utiliza la fotosensibilidad vegetal para imprimir imágenes, es decir, las hojas y pétalos no contienen tintas, químicos, ni emulsiones adicionadas, y eso es lo que hace interesante este trabajo: utilizar la clorofila y los pigmentos de la naturaleza.

Bajo el título ‘El extraño caso del jardinero’, Ruiz reveló simbólicamente una historia, ya que se trata de fotografías que muestran el crecimiento de su hijo, quien desde que chiquito expresó un gran interés en cuidar el jardín. La idea que refleja esta muestra es que las plantas empezaron a agradecerle al ñiño por los cuidados que este les brindó, a través de estas ‘revelaciones’.

Para quienes se interesan en el aspecto técnico del proceso a través del cual fue posible obtener estas fotografías: a partir de una fotografia digital convertida en una pieza que se utiliza como el ‘negativo’, se usan los rayos del sol como ‘ampliadora’ y a las hojas y pétalos como papel fotográfico que en vez de contener una emulsión artificial, poseen sus componentes fotosensibles naturales, los cuales se exponen al sol generando sombras y accesos a la luz. Las hojas y pétalos se comienzan a tabajar cuando aún están vivas, y podría decirse que la manera de revelar fotos en ellas se trata de un ‘marchitar selectivo’.

Experimentar con emulsiones naturales representa la posibilidad del acceso a que más personas puedan aprender este tipo de fotografía, por lo que este trabajo podría representar el inicio de algo más grande.

 

Fonte: Postagem de Marcos Varanda em rede social. Revelan fotos en plantas utilizando sus pigmentos naturales

A History of Photography in Which the Camera Is Absent   Leave a comment

Isabella

 Pages from ‘Emanations: The Art of the Cameraless Photograph,’ with photographs by Charles David Winter and Jacob von Narkiewicz-Jodko (photo of the book for Hyperallergic)

Emanations: The Art of the Cameraless Photograph

Batchen points out that what helped cameraless photography thrive in postwar art was the ability to layer images into two-dimensional assemblages, something practiced by artists like Man Ray and Christian Schad. László Moholy-Nagy especially excelled at it with his dynamic photograms, some of which are on view in his current retrospective at the Guggenheim Museum.

“Many artists responded by seeking to abandon or overthrow prevailing conventions of reality, conventions associated with bourgeois society and therefore with the established social and political system,” Batchen states. “In other words, seeing itself became a political issue.”

And this augmenting of seeing keeps cameraless photography interesting, with plenty of curiosities packed in Emanations. Hiroshi Sugimoto’s 2008 “Lightning Fields” capture electric discharge right on the plates, while Michael Flomen started making in 1999 impressions of the paths of fireflies as they moved on color reversal film, and in 1993 Joan Fontcuberta covered his whole car windshield with film and blasted it with light to capture the dead insects and dirt. The main connection between these historic and contemporary projects is the lack of the camera as a framing device, as well as treating the photograph as a tactile medium, a light-sensitive blank slate on which to capture some ghostly, fleeting impression of the world.

Emanations: The Art of the Cameraless Photograph

Anna Atkins, “Partridge” (1856–61), cyanotype, from presentation album, compiled in 1861, 25.5 x 20.0 cm (courtesy Hans P. Kraus Jr.)

Emanations: The Art of the Cameraless Photograph

Oscar Gustave Rejlander in collaboration with Julia Margaret Cameron, Untitled (“Kate Dore with Photogram Frame of Ferns”) (1862), albumen photograph, 19.6 × 15.0 cm (courtesy Victoria and Albert Museum)

Pages from 'Emanations: The Art of the Cameraless Photograph' (photo of the book for Hyperallergic)

Pages from ‘Emanations: The Art of the Cameraless Photograph,’ with work by Robert Rauschenberg (photo of the book for Hyperallergic)

Emanations: The Art of the Cameraless Photograph

E. E. Fournier d’Albe, “Shadowgraph of Ectoplasm from the Irish Goligher Circle” (June 13, 1921), gelatin silver photograph (courtesy Cambridge University Library)

Emanations: The Art of the Cameraless Photograph

Curtis Moffat, “Abstract Composition” (1925), gelatin silver photograph, 36.5 × 29.0 cm (courtesy Victoria and Albert Museum)

Pages from 'Emanations: The Art of the Cameraless Photograph' (photo of the book for Hyperallergic)

Pages from ‘Emanations: The Art of the Cameraless Photograph,’ with photographs by György Kepes (photo of the book for Hyperallergic)

Emanations: The Art of the Cameraless Photograph

Len Lye, “Georgia O’Keeffe” (1947), gelatin silver photograph, 42.9 × 35.9 cm (courtesy Len Lye Foundation Collection, Govett-Brewster Art Gallery / Len Lye Centre, New Plymouth)

Shimpei Takeda, "Trace #7, Nihonmatsu Castle (Nihonmatsu, Fukushima)" (2012), gelatin silver photograph, 40.0 × 50.5 cm (courtesy the artist)

Shimpei Takeda, “Trace #7, Nihonmatsu Castle (Nihonmatsu, Fukushima)” (2012), gelatin silver photograph, 40.0 × 50.5 cm (courtesy the artist)

Bai Yiluo, "Dead Flies" (detail) (2001), five gelatin silver photographs hung side-by-side as a unit (courtesy Galerie Urs Meile, Beijing and Lucerne)

Emanations: The Art of the Cameraless Photograph is out now from Prestel/Delmonico BooksThe Emanations exhibition continues at the Govett-Brewster Art Gallery (42 Queen Street, New Plymouth, New Zealand) through August 14. 

DOCUMENTÁRIOS SOBRE HISTÓRIA DA ARTE PODE AJUDAR NO REPERTÓRIO DE FOTÓGRAFOS   Leave a comment

São 50 documentários de vários artistas

Trabalhar com fotografia é andar lado a lado com arte, técnica, repertório, sensibilidade e mais uma série de temáticas que fazem da captura “daquela” imagem um momento único. E quando o trabalho exige o conjunto de aprendizados específicos e pautados no artístico, procurar referência na História da Arte não seria nada mal.

Caravaggio

Quadro Os Jogadores de Cartas de Michelangelo Merisi, mais conhecido como Caravaggio

Quadro Os Jogadores de Cartas de Michelangelo Merisi, mais conhecido como Caravaggio

Para ampliar ainda mais o acervo de estudos dos fotógrafos e entrantes na profissão, está disponível on-line uma série de documentários sobre os maiores nomes da pintura, como Michelangelo, Da Vinci e Frida Kahlo, além de alguns períodos que marcaram esse universo, incluindo o impressionismo e o renascimento.

Os links para cada documentário está na lista abaixo. A maioria dos vídeos possui legenda em português. Acomoda-se em um bom lugar para os estudos e dê o play:

BoschBlakeCaravaggioConstableCourbetDelacroix, DegasEscher, El Greco (em espanhol)FriedrichFrida Kahlo (em espanhol).

Guilhermo Kahlo

frida-khalo-2

Frida Kahlo

GauguinGoyaHogarthKandiskyKlimt, Leonardo da VinciLeonardo da Vinci, O MundoManetMichelangeloMiró (espanhol)MonetMunchPaul CezannePaul KleePicasso, (espanhol)PissarroRafaelloRembrandRembrandt – Série Gênios da PinturaRenoirRossettiRousseau.

Divulgação

salvador-dali-documentario-post

Dalí

Salvador Dali (espanhol)Salvador Dali, Biografia (espanhol)SeuratTurnerToulouse-IautrecVan GoghVan Gogh – Série Grandes ArtistasVan DyckVermeerVermeer – Série Grandes ArtistasVelasquez.

Os ImpressionistasPinturas do Alto RenascimentoGrande Pintores Norte-AmericanosAFM – O Dia Que as Imagens NasceramAFM – A Arte da PersuasãoAFM – Era Uma Vez.

Fonte: Postagem de Marcos Varanda em rede social.  
http://www.fhox.com.br/news/documentarios-sobre-historia-da-arte-pode-ajudar-no-repertorio-de-fotografos/

Publicado 15/08/2016 por Isabella Carnevalle em História

Etiquetado com

Biblioteca de Nova Iorque disponibiliza imagens raras do Brasil imperial na internet   Leave a comment

por Taisa Sganzerla

http://digitalcollections.nypl.org/items/510d47df-8cee-a3d9-e040-e00a18064a99

Em janeiro deste ano, a Biblioteca Pública de Nova Iorque adicionou mais de 180 mil itens ao seu acervo digital – entre eles, fotografias e gravuras raras do Brasil do século 19.

O lançamento é resultado de um dos maiores projetos de digitalização de acervo já realizados no mundo e inclui documentos valiosos, como manuscritos dos escritores americanos Walt Whitman e David Thoreau. Também foram feitas mudanças no portal do acervo digital, onde os itens estão disponíveis — a ideia é facilitar e encorajar usuários a explorar as novas coleções, segundo o blog da NYPL.

Entre os novos itens relacionados ao Brasil, estão as fotos do livro The Negro in the New World, escrito pelo explorador britânico Sir Harry Johnston e publicado em Londres em 1910. Johnston nunca esteve no Brasil, mas tinha “informantes” no país — ao menos é o que diz o escritor Gilberto Freyre, que menciona o funcionário colonial britânico no livro Casa Grande e Senzala, publicado no Brasil em 1933.

nypl.digitalcollections.510d47df-88b7-a3d9-e040-e00a18064a99.001.w

http://digitalcollections.nypl.org/items/510d47df-8ced-a3d9-e040-e00a18064a99

As fotos, provavelmente tiradas logo após a abolição da escravidão no Brasil, retratam o cotidiano da população negra do país, sobretudo na Bahia.

Outro item disponibilizado pela Biblioteca é o “Livro de Figurinos do Exército Imperial Brasileiro de 1866″, um documento do exército obtido pelo médico holandês H. J. Vinkhuijzen no século XIX. O médico montou uma enorme coleção de uniformes militares do mundo inteiro, que foi doada à Biblioteca em 1911.

http://digitalcollections.nypl.org/items/510d47d9-80c6-a3d9-e040-e00a18064a99

Há também uma gravura da partida de Dom Pedro II de Nova Iorque em 1876, após a sua viagem de três meses no Estados Unidos (o diário de Dom Pedro desta jornada, por sua vez, está disponível no site do Museu Imperial, do Rio de Janeiro). A gravura, de autor desconhecido, foi publicada pelo semanário literário Frank Leslie’s Illustrated Newspaper, impresso nos EUA entre 1852 e 1922.

http://digitalcollections.nypl.org/items/79d9c2d8-f370-4228-e040-e00a18061fdc

Outro item, este de quando o Brasil já era uma república, é um perfil de Getúlio Vargas publicado pela revista do jornal norte-americano The New York Times, em 1942. Já as pinturas do artista alemão Johann Moritz Rugendas, que esteve no Brasil no anos 1820, foram digitalizadas pela primeira vez em alta resolução.

http://digitalcollections.nypl.org/items/0f812330-93e9-0130-9dc3-58d385a7bbd0

Além da digitalização, o NYPL Labs, divisão de iniciativas digitais da Biblioteca, também lançou outros três projetos: O Mansion Builder, um jogo em que é possível explorar plantas de apartamentos nova iorquinos da virada do século 20; um ‘Google Street View’ da 5ª avenida de 1911; e o Trip-Plannerque combina uma ferramenta de mapas com endereços recomendados pelo Green Book — um guia de viagem publicado entre 1936 e 1966 com indicações de hotéis e restaurantes nos Estados Unidos em que afro-americanos eram bem vindos.

O Global Voices já destacou outros documentos valiosos disponibilizados pela Biblioteca relacionados ao Vietnã, Japão eÍndia.

Fonte: postagem em rede social de Rubens Fernandes Junior – https://pt.globalvoices.org/2016/01/31/biblioteca-de-nova-iorque-disponibiliza-imagens-raras-do-brasil-imperial-na-internet/

Publicado 01/02/2016 por Isabella Carnevalle em História, Notícais

Imagens desfocadas: Julia Margaret Cameron e outras fotógrafas para redescobrir   Leave a comment

por FILIPA LOWNDES VICENTE

A sua assumida autopromoção teve os seus frutos. Apesar do seu começo tardio e de ser uma mulher num campo maioritariamente masculino, o modo único como fotografava deu-lhe a notoriedade em vida que persistiu para lá da sua morte. A diferença é que, se, no século XX, entrou nos cânones pouco contestados dos grandes precursores da fotografia, em vida, a sua obra foi menos pacífica. Aquilo que muitos identificavam como a sua originalidade – os retratos difusos, desfocados, etéreos, em grande plano e as encenações temáticas em forma de alegorias, cenas históricas ou bíblicas –,outros consideravam problemático.

As imagens desfocadas e a presença das marcas do processo fotográfico, as manchas, dedadas, riscos e luz, características assumidas no trabalho de Cameron, eram para os seus críticos precisamente os “erros técnicos” que os fotógrafos tinham de saber eliminar. Para alguns, os “erros” deviam-se ao facto de ela ser uma mulher. Neste período, era muito comum a crítica de arte ou de literatura julgar o trabalho criativo das mulheres tendo em conta o seu género: quando era considerado de qualidade, a artista era considerada uma excepção ao seu sexo, ou uma mulher com características masculinas; quando era criticado negativamente, os seus limites – fossem eles quais fossem –, eram então atribuídos à sua condição feminina. A percepção do mérito e qualidade como algo independente de questões de género era – ontem como hoje – uma ilusão. A exposição londrina explora a crítica contemporânea da fotógrafa e mostra a própria materialidade da prática fotográfica – os seus acasos e enganos – numa década em que esta ainda era complexa, demorada e cara.

Hosanna por Julia Margaret Cameron (1865) CORTESIA: VICTORIA & ALBERT MUSEUM

Fotografar como quem pinta: realidade ou representação?

Outra crítica era a de que Cameron fotografava como quem pintava. As suas cuidadas encenações – em que familiares, empregados e amigos “se mascaravam”, numa teatralização imóvel, para representar santos, alegorias de emoções e sentimentos, deusas gregas, personagens de Dante Alighieri ou de poemas históricos – eram consideradas, por alguns, como exercícios mais próprios da pintura do que da fotografia. De facto, há muito de pictórico no modo como ela usou a técnica fotográfica, bem como na forma como transformou as filhas ou os netos (mais as mulheres e as crianças do que os homens) em personagens. Num período em que à fotografia se atribuía a morte da pintura e em que se discutia como a revolução fotográfica tinha transformado a representação do real, Cameron parece usar estes dilemas a seu favor. Não para os resolver, mas para fazer deles o seu objecto de reflexão e de trabalho. Fê-lo como uma mulher culta do seu tempo, inscrevendo as múltiplas referências literárias, históricas e religiosas nas suas fotografias encenadas, num claro diálogo com a pintura pré-rafaelita. E fotografando alguns nomes ilustres contemporâneos (mais homens do que mulheres) que faziam parte do seu círculo: Charles Darwin, Thomas Carlyle, George Watts, Henry Taylor, Alfred Tennyson ou o cientista Sir John Herschel.

Foi a este último, amigo e mentor, que Cameron ofereceu um álbum de 94 fotografias feitas por si, e que está exposto, até Março, do outro lado da rua do Victoria and Albert, no Science Museum de Londres. A maioria das mulheres e crianças fotografadas ou são familiares ou tendem a ser transformadas em personagens, enquanto os homens são eles próprios e mantêm o seu nome e identidade. Entre um dos seus extraordinários retratos surpreende o de uma mulher, retratada de perfil e quase na sombra. Tratava-se de uma das suas sobrinhas, que veio a ser a mãe de Virginia Woolf – facto que talvez explique o entusiasmo que esta última mostrou pela fotografia desde a sua adolescência. A escritora fotografava, revelava os negativos, trocava imagens com amigos, fazia os seus álbuns (vários estão hoje na biblioteca de Harvard) e também usava a linguagem fotográfica na modernidade dos seus romances. Uma exposição em Paris, aberta até 24 de Janeiro de 2016, tem como cartaz principal o retrato que Cameron fez de Julia Jackson, mãe de Virginia Woolf. Qui a peur des femmes photographes? 1839 à 1945, uma alusão à frase muito usada “Quem tem medo dos feminismos?”, traça um panorama de mulheres fotógrafas desde o começo até ao fim da II Guerra, pouco mais de 100 anos que revolucionaram os modos de ver e compreender o mundo.

Charles Darwin por Julia Margaret Cameron em1868 CORTESIA: VICTORIA & ALBERT MUSEUM

Mulheres fotógrafas: o privilégio de algumas

Na década de 1880, novas invenções tecnológicas tornaram os aparelhos fotográficos mais baratos, portáteis, fáceis de manejar e, por isso, acessíveis a um número muito maior de pessoas. Quando Cameron fotografou, ainda era um privilégio de poucos. Não era por acaso que as muitas mulheres que se dedicavam à fotografia pertenciam a uma elite culta, erudita, viajada, com possibilidades económicas e tempo disponível. Na Grã-Bretanha da segunda metade do século XIX, foram muitas as mulheres que se dedicaram profissionalmente à escrita literária, ao jornalismo, ou à pintura. Os direitos das mulheres, de acesso à propriedade económica ou à educação, faziam parte dos debates da opinião pública. A fotografia surgiu como mais uma nova área de trabalho e criatividade para as mulheres, mas, tal como sucedia em todas as outras esferas, o seu género afectava aquilo que podiam fazer – por exemplo, a maior parte das mulheres fotografava “em casa”, tendo por temas das suas fotografias o seu próprio ambiente familiar, não conseguindo profissionalizar-se e apenas mantendo a sua condição de filhas ou mulheres de homens que também fotografavam. Foi o que sucedeu com a portuguesa Margarida Relvas, filha do grande fotógrafo Carlos Relvas.

Julia Margaret Cameron é uma excepção na medida em que tanto teve reconhecimento em vida como na posterior escrita da história, processo em que tantas mulheres autoras-criadoras ficam pelo caminho. A maior parte dos casos foram integrados na história posteriormente, quando as abordagens feministas à história e à história da arte “descobriram” que afinal elas eram em muito maior número do que se julgava. Clementina Lady Hawarden (1822-1865), a fotografar as filhas, na sua casa de Londres, em retratos admirados por Lewis Carroll, autor de Alice no País das Maravilhas e também fotógrafo amador. Ou Lady Charlotte Canning (1817-1861), mulher de um governador-geral da Índia colonial britânica, que em 1860 levou uma máquina para Calcutá, dedicou-se à fotografia (e à pintura) como amadora e foi patrona da Bombay Photographic Society. Ao contrário de muitas instituições britânicas de prestígio, como a Royal Academy of Arts ou a Royal Geographical Society, a Royal Photographic Society of Great Britain, inaugurada em 1853, com um encontro aberto “a senhoras e cavalheiros interessados em fotografia”, adoptou como uma das suas regras que as “senhoras” podiam ser membros.

Em Portugal, foram muitas as mulheres que fotografaram, sobretudo num período mais tardio, e algumas exposições recentes têm-no mostrado muito bem. Em finais de 2013, o Arquivo Municipal de Fotografia de Lisboa apresentou Ana Maria de Sousa e Holstein. Álbum de Família, exemplo da prática fotográfica por parte de uma aristocrata portuguesa. Neste momento, no Palácio Nacional da Ajuda, outra exposição prova a relevância da fotografia na vida da corte, não só para preservar acontecimentos públicos e viagens, mas como instrumento de memórias familiares. Rainha e rei não foram só fotografados, como todas as outras figuras reais deste período, eles foram também fotógrafos. Comissariada por Luís Pavão, Tirée par… a Rainha D. Amélia e a Fotografia, mostra algumas das centenas de fotografias que D. Amélia e D. Carlos organizaram em álbuns – esse objecto por excelência da domesticidade burguesa que, ao longo do século XX, se democratizou de muitas maneiras. Finalmente, as exposições históricas de fotografia tornaram-se comuns em museus portugueses, uma tendência que a academia não tem acompanhado. Falta, talvez, uma maior consciência de género nas abordagens históricas à fotografia. Estudos de caso há ainda muitos por explorar. Uma exposição sobre as fotografias de Maria Lamas, na sua tripla identidade de escritora-viajante-fotógrafa no final dos anos 1940, a trabalhar para o seu livro As Mulheres do Meu País?

Escrita e fotografia

Ao longo da segunda metade do século XIX, a fotografia penetrou em todos os campos – a ciência, as expedições, as viagens, a intimidade, o erotismo, os projectos imperiais, a violência, as relações afectivas. A literatura e a fotografia, por exemplo, cruzaram-se de muitas formas. Escritores que fotografavam, que eram fotografados e que escreviam sobre fotografia; fotógrafas e fotógrafos que escreviam sobre a sua prática. Elizabeth Barrett Browning, poetisa inglesa que escreveu Sonnets from the Portuguese (1847), descreveu o seu entusiasmo com a invenção do daguerreótipo. Julia Margaret Cameron pôs por escrito os seus metódos e ideias no texto autobiográfico Annals of My Glass House, os Anais da Minha Estufa, o espaço de arquitectura de jardins que transformara em estúdio fotográfico. Dois dos textos mais icónicos sobre fotografia publicados no século XX foram escritos por mulheres. A primeira, Gisèle Freund, fotógrafa, trabalhou em jornalismo, documentário e fez retratos de escritores como Virginia Woolf, Walter Benjamin ou James Joyce. Em 1934, doutorou-se na Sorbonne, em Paris, como uma tese intitulada A Fotografia em França no Século XIX. Ensaio de Sociologia e Estética que publicou em 1936 e foi recenseada por Walter Benjamin, em 1974, Photographie et Société. A segunda, Susan Sontag, ensaísta exímia, publicou Sobre Fotografia, em 1973.

D. Amélia com o príncipe Wilhelm de Hohenzollern, a bordo de um iate, entre Nápoles e Capri, em 1903 MUSEU-BIBLIOTECA DA CASA DE BRAGANÇA

Quando Sontag estava a morrer com um cancro em 2005, a namorada, Annie Leibovitz, fotografou-a na cama de hospital. A fotografia como antecâmara da dor, catarse antecipada de luto eminente ou exploração da intimidade? Vi-as na retrospectiva que a National Portrait Gallery Londrina lhe fez em 2008, Annie Leibovitz. A Photographer’s Life 1990-2005. Nessas fotografias, encontrei a humanidade da morte e da doença – à qual em 1978 Sontag dedicara o seu livro A Doença como Metáfora – e só me perturbou o contraste entre a intimidade dolorosa daquela cama de hospital e as imagens de celebridades sorridentes que a rodeavam.

Mulheres que fotografam mulheres

Este ano, num gesto, bem-vindo, de auto-reflexão, os organizadores do calendário Pirelli 2016 contrataram Leibovitz para fotógrafa das 12 mulheres/12 meses do ano. Não necessariamente por ser mulher – muitas também se objectificam a si próprias ou a outras mulheres –, mas por ser feminista, a fotógrafa norte-americana subverteu o sexismo habitual do calendário, fotografando mulheres com identidade e com talentos reconhecidos. Os debates em torno das representações de mulheres já têm lugar na academia há muito, sobretudo na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. A imprensa britânica é mais polarizada. Por um lado, um jornalismo muito consciente de questões de género, em que não há medo de usar a palavra “feminismo” e inseri-la em todas as questões políticas. Por outro lado, os tábloides usam e abusam da filosofia Pirelli pré-2016, e as fotografias de homens ilustres vestidos partilham as páginas com mulheres semidespidas. Quem faz história da fotografia sabe que, desde a sua invenção, a fotografia também foi isso: um poderoso instrumento de colonização do corpo das mulheres, capaz de o estereotipar, objectificando-o e retirando-lhe a subjectividade individual.

A escritora Virginia Woolf fotografada em Londres (1939) por Gisèle Freund, que foi fotógrafa, trabalhou em jornalismo e documentárioGISÈLE FREUND

Um caso, curioso, que remete para os vários lugares ocupados pelas mulheres, à frente ou atrás da lente-ecrã fotográfica é o de Lee Miller (1907-1977). Modelo fotografada e fotógrafa. Musa e artista. Desnuda e erotizada, quando fotografada por homens. Fotojornalista de guerra e de humor, quando fotógrafa. No Imperial War Museum, de Londres, é possível ver até finais de Abril de 2016 a exposição Lee Miller: A Woman’s War, centrada apenas nas fotografias que a norte-americana fez durante a guerra, em Londres. Em 1927, estava na capa da Vogue americana. Em 1929, era amante e musa, e também aprendiz de fotógrafa, de Man Ray. Três anos depois, abria o seu estúdio fotográfico em Nova Iorque. O marido inglês levou-a a Londres, onde chegou quando eclodiu a Segunda Guerra Mundial. E, em 1940, publicou Grim Glory, o seu primeiro livro com as fotografias da cidade em estado de guerra, tendo começado a trabalhar na Vogue britânica, quer a fotografar, quer a escrever.

Foi como correspondente de guerra que a mesma revista a enviou a vários países europeus: os hospitais da Normandia, a Libertação de Paris, os campos de concentração, ou casa onde Hitler vivera em Munique fizeram parte dos seus temas de guerra. Através das fotografias que Miller fez antes, durante e logo a seguir à guerra, a actual exposição no Imperial War Museum de Londres centra-se nos modos como as mulheres viveram a guerra e foram afectadas por ela. Mulheres fotografadas por uma mulher. A guerra, o conflito, a violência nas suas associações à fotografia têm sido tema de exposições recentes – por exemplo Conflict, Time, Photography, na Tate Modern até Março de 2015 –, tal como têm sido uma das áreas mais desenvolvidas nos estudos sobre fotografia da última década. Muitas das práticas artísticas e fotográficas contemporâneas surgem como uma reflexão e um modo de activismo sobre o mundo em que vivemos, ajudando a pôr em causa uma história tradicional desprovida de instrumentos para a analisar. Não é por acaso que a arte contemporânea, tal como a fotografia têm sido cada vez mais interpeladas por uma variedade de disciplinas que vão da filosofia à ciência política, à teoria feminista, à cultura visual.

Lee Miller na banheira de Hitler, Munique (1965) LEE MILLER E DAVID E SCHERMAN

As muitas exposições de fotografia de mulheres fotógrafas que, de modo consciente, se têm organizado em tantos lugares nos últimos anos vêm perturbar as narrativas canonizadas quer da história da fotografia, quer da própria história. A fotografia, enquanto tecnologia revolucionária que se cruzou com todas as dimensões, tornou-se um objecto de estudo relevante para as mais diversas áreas das ciências sociais e humanas. Desde as abordagens feministas que interpelaram as ciências sociais e humanas de modo irreversível desde a década de 1970 que as mulheres, enquanto autoras, criadoras, agentes da história, passaram também a ser objecto de estudo. Não numa mera reposição de um cânone, tal como já existia, inquestionado, no masculino. Nem na procura da excepcionalidade de umas quantas mulheres-heroínas que teriam conseguido transgredir as sua limitações. Sim. Elas –fotógrafas, artistas, escritoras, cientistas – foram muito mais do que imaginamos, estudamos nos vários níveis de ensino ou conhecemos. O que é mesmo surpreendente é que tenham sido tantas. Há que estudá-las também enquanto mulheres, porque esse factor, juntamente com outros, foram determinantes nos modos como puderam fazer. Mas importa também fazer as outras perguntas. E essas, sim, interpelam-nos muito mais a nós próprios – no presente – do que ao passado. Porque é que hoje ainda reproduzimos tantas das discriminações em relação à criação e conhecimentos das mulheres nos modos como escrevemos, expomos e “escolhemos” o passado?

fonte: http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/imagens-desfocadas-exposicoes-de-mulheres-fotografas-entre-londres-lisboa-e-paris-1718688#
%d blogueiros gostam disto: