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A João Guimarães Rosa: fotografias de Maureen Bisilliat   Leave a comment

“Vou lhe falar. Lhe falo do sertão. Do que não sei. Um grande sertão! Não sei. Ninguém ainda não sabe. Só umas raríssimas pessoas.” 

João Guimarães Rosa, no livro ‘Grande Sertão: Veredas’. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, p. 100.

Boiada nos campos de Curvelo, MG, no início da viagem aos gerais. 1963-1967
foto: © Maureen Bisilliat – Acervo IMS

 

“O querer-bem da gente se despedindo feito um riso e soluço, nesse meio de vida.”

João Guimarães Rosa, no livro ‘Grande Sertão: Veredas’. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, p. 583.

Extraindo o polvilho da mandioca, perto de Janurária, MG.1962-1966
foto: © Maureen Bisilliat – Acervo IMS

 

“Travessia perigosa, mas é a da vida.”

João Guimarães Rosa, no livro ‘Grande Sertão: Veredas’. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, p. 542.
Cruzando rio ao pé da Serra das Araras, c. 1966. Próximo a Montes Claros, MG.
foto: © Maureen Bisilliat – Acervo IMS

 

“Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.”

João Guimarães Rosa, no livro ‘Grande Sertão: Veredas’.  Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

Menino perto de forno para queima de carvão de lenha
foto: © Maureen Bisilliat – Acervo IMS

 


“É o que eu digo, se for… Existe é homem humano.”

João Guimarães Rosa, no livro ‘Grande Sertão: Veredas’. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, p. 608.

Habitantes dos campos perto de Lassance. MG, 1963-1967
foto: © Maureen Bisilliat – Acervo IMS

“Agora, que o senhor ouviu, perguntas faço. Por que foi que eu precisei de encontrar aquele Menino? Toleima, eu sei. Dou, de. O senhor não me responda.”
João Guimarães Rosa, no livro ‘Grande Sertão: Veredas’. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, p. 109.
Habitantes dos campos perto de Lassance. MG, 1963-1967
foto: © Maureen Bisilliat – Acervo IMS


“Tudo em mim, minha coragem: minha pessoa, a sombra de meu corpo no chão, meu vulto. O que eu pensei forte, as mil vezes: que eu queria que se vencesse; e queria quieto: feito uma árvore de toda altura!”

João Guimarães Rosa, no livro ‘Grande Sertão: Veredas’. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, p. 555.

Retrato de Manuel Nardi, inspirador do conto ‘Manuelzão e
Miguilim’, de Guimarães Rosa, Andrequicé, MG. 1966.
foto: © Maureen Bisilliat – Acervo IMS

 

“Sertão velho de idades. Porque serra pede serra e dessas, altas, é que o senhor vê bem: como é que o sertão vem e volta. Não adianta se dar as costas. Ele beira aqui, e vai beirar outros lugares, tão distantes. Rumor dele se escuta. “

João Guimarães Rosa, no livro ‘Grande Sertão: Veredas’. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006,p. 542.

Gente de Andrequicé, Minas Gerais.
foto: © Maureen Bisilliat – Acervo IMS


“Sertão que se alteia e se abaixa. Mas que as curvas dos campos estendem sempre para mais longe. Ali envelhece vento.”

João Guimarães Rosa, no livro ‘Grande Sertão: Veredas’. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, p. 542.
A João Guimarães Rosa. foto: © Maureen Bisilliat|Acervo IMS

 

 

“Um espaço para os de meia-razão.”

João Guimarães Rosa, no livro ‘Grande Sertão: Veredas’. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, p. 314.

A João Guimarães Rosa. foto: © Maureen Bisilliat|Acervo IMS

 

 
“A gente principia as coisas, no não saber porque, e desde aí perde o poder de continuação — porque a vida é mutirão de todos, pôr todos remexida e temperada. Sertão. O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado!”

João Guimarães Rosa, no livro ‘Grande Sertão: Veredas’. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

A João Guimarães Rosa. foto: © Maureen Bisilliat|Acervo IMS

 

“A culpa minha, maior, era meu costume de curiosidades de coração. Isso de estimar os outros, muito ligeiro, defeito esse que me entorpecia.”

 

João Guimarães Rosa, no livro ‘Grande Sertão: Veredas’. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

 

“escrever com a imagem e ver com a palavra.”

Maureen Bisilliat

 

A JOÃO GUIMARÃES ROSA

A Joaõ Guimarães Rosa, de Maureen Bisilliat

– por Maureen Bisilliat (IMS – Séries | 24.9.2013)

Voltas no tempo ‘A João Guimarães Rosa’
Tudo começou em 1963, quando ganhei de um amigo um exemplar de Grande sertão: Veredas, de Guimarães Rosa – não sem a observação de que talvez não conseguisse compreender a linguagem especialíssima do autor. Não só compreendi como mergulhei nas águas daquele mar de palavras – o sertão não viraria mar? -, inspirada e instigada a investigar a relação direta de Rosa com os gerais de Minas Gerais. Assim, durante os anos 60 viajei por essas terras seguindo um roteiro sugerido pelo autor, iniciando pelas raízes – Curvelo, Cordisburgo, Andrequicé -, subindo pelo tronco da árvore, expandindo pelos galhos, até chegar em Januária, no norte de Minas. Desloquei-me para lá e, ao voltar de cada viagem, ia visitar o escritor, então chefe do Serviço de Demarcação de Fronteiras do Itamaraty. Levava, a cada encontro, um calhamaço de fotografias captadas nas terras do autor de Sagarana e, atrás de cada uma, ele anotava detalhes – nome, idade, solteiro, casado ou viúvo, lugar de encontro, como e quando etc. -, recebendo através das imagens mensagens dos gerais. No final de nossas reuniões, ele sempre me acompanhava até o elevador e me desejava uma boa próxima viagem, dizendo estar certo de que eu, como irlandesa, iria compreender os eflúvios poéticos dos gerais, devido à semelhança entre aquela região e a Irlanda (“Irlandesa Cigana” foi, aliás, como ele me apelidou, teria ele entrevisto alguma ancestralidade cigana nos meus cabelos longos, roupas amplas, sandálias no pé?).
Anos depois desses nossos encontros, fui visitar sua viúva, Dona Aracy, no prédio onde eles tinham morado em Copacabana, Posto 6. Lá, ela me levou até uma pequena sala, entre os rochedos e o mar, e contou que fora ali que Rosa escrevera seu Grande sertão. “Noite após noite”, confidenciou-me, “eu levava para ele duas ou três trocas de pijama, pois enquanto escrevia transpirava muito, banhando-se em suor. Ele me dizia que recebia a obra assoprada, sendo ele apenas receptor”.

Andrequicé, 1966

Maureen Bisilliat e a exposição “A João Guimarães Rosa”

Porta de entrada para os gerais de Guimarães, companheiro de viagem de Manuelzão – Manuel Nardi, vaqueiro-mor, personagem central de uma das novelas de Corpo de Baile: “Miguilim e Manuelzão”, do ali lembrado escritor João Guimarães Rosa.

Comecei a conhecer os sertões por suas veredas. Iniciei minha busca seguindo de ônibus para Minas, parando primeiro em Cordisburgo, lugar de nascimento do autor, prosseguindo rumo ao norte e chegando em Andrequicé, povoado pequeno, pouso na rota das boiadas pelos sertões. Ao chegar, o sol se escondendo no horizonte, acerquei-me de um pequeno boteco e, após me apresentar como alguém em busca dos rastros de Guimarães, fui acolhida com uma boa notícia: “A moça está com sorte, pois não é que chegou agorinha mesmo o Manuelzão do Rosa, vindo direto da fazenda para uma celebração de crisma em Andrequicé!” Sim, o próprio Manuel Nardi, inspirador do conto “Manuelzão e Miguilim”, publicado em 1956, como parte do livro Corpo de baile: um bom augúrio para a busca planejada!
Indaguei acerca de um lugar para pernoitar e o moço do boteco me levou à casa de uma velha senhora que me recebeu com a acolhida espontânea e ampla dos que pouco têm, mas muito oferecem: ovo frito, saborosa farofa e um café mineiro, doce, perfumado e ralo, daqueles que descem como água benta apaziguando a sede!
Dormi com a candeia acesa, a esteira no chão. Acordei cedo, o sol despontando no horizonte, no friozinho da madrugada. E lá estava ele, Manuelzão, sombra esguia na parede caiada, chapéu de abas firmes, capa de feltro azul, rosto de couro curtido, olhar de águia me aguardando sem prosa, pronto para o retrato que viria a ser – para mim e para muitos – emblemático da estirpe rija dos gerais de Guimarães. De repente, me olhando a esmo, deparei com a figura de um homem – um vaqueiro, talvez? Pedi licença para tirar o seu retrato. Sisudo e cismado, ele não quis me atender. Satisfeita com a sorte, feliz da vida, com Manuelzão na máquina, passei o dia fotografando boiadas na poeira do campo. No fim do dia, de volta para Andrequicé, avistei a figura do homem, lá me esperando, calmo e quieto, no aguardo de seu retrato: era isso que ele queria ter. Acontece que de manhã, quando me viu pela primeira vez, ficou com medo. Por ser cigano achou que eu era da polícia e estava lá para prendê-lo. Era isso, então. Como os romas da França de Sarkozy, os ciganos dos gerais também são malvistos, estigmatizados como gatunos e ladrões de cavalos, vítimas de velhos preconceitos encravados na contramão da história, levando a guerras e desentendimentos entre nações!
:: Fonte: IMS (acessado em 22.6.2016)

BIOGRAFIA DE MAUREEN BISILLIAT

Maureen Bisilliat – foto: Juan Esteves

A inglesa Sheila Maureen Bisilliat(Englefieldgreen, Surrey, Inglaterra 1931), construiu desde os anos 1950, quando se mudou para o Brasil, um dos mais sólidos trabalhos de investigação fotográfica da alma brasileira, aliando a seu olhar de estrangeira um respeito profundo por seus temas – sobretudo sertanejos e índios – e a busca de apoio conceitual na antropologia e em grandes obras da literatura nacional. Desde dezembro de 2003, sua obra completa está incorporada ao acervo do Instituto Moreira Salles, num total de 16.251 imagens, entre fotografias, negativos em preto e branco e cromos coloridos.
Filha de um diplomata argentino e de uma pintora inglesa, Maureen viveu uma infância itinerante entre Inglaterra, Estados Unidos, Dinamarca, Colômbia, Argentina e Suíça. Esse desenraizamento cultural, apontado por ela mesma, começou a terminar quando, em 1953, mudou-se para São Paulo em companhia do fotógrafo espanhol José Antonio Carbonell, seu primeiro marido. Estudante de pintura desde o ano anterior, começou a se interessar por fotografia por influência de Carbonell, realizando seus primeiros experimentos tendo como modelos imigrantes japoneses de uma plantação de algodão no interior de São Paulo.
Após algumas temporadas no exterior – em Paris, em 1955, onde estudou pintura com André Lhote; em Nova York, dois anos depois, para frequentar o Arts Students League; e na Venezuela, em 1959, onde trabalhou como telefonista – Maureen retornou ao Brasil e, já separada de Carbonell, começou a se dedicar mais intensamente à fotografia, terminando por abandonar a pintura. Desta, porém, restou seu fascínio expressionista pelo claro-escuro e pelos enquadramentos surpreendentes.
A globe-trotter estava prestes a finalmente fixar raízes. Data de 1960 seu primeiro contato com Jorge Amado, que lhe inspirou a ideia de realizar um trabalho de “equivalência fotográfica” sobre obras literárias nacionais. Poucos anos depois, ao percorrer o sertão de Minas Gerais em busca de imagens que dialogassem com Grande sertão: veredas, obra-prima de Guimarães Rosa, Maureen já tinha se naturalizado brasileira.
De 1964 a 1972, fotojornalista contratada da Editora Abril, realizou para revistas como Realidade e Quatro Rodas ensaios que ficaram célebres, entre eles “A batucada dos bambas”, sobre o samba tradicional carioca, e “Caranguejeiras”, retratando mulheres catadoras de caranguejos na aldeia paraibana de Livramento. Paralelamente, dava prosseguimento a suas “equivalências fotográficas” com a literatura, que entre os anos 1960 e 1990 publicaria numa série de livros importantes. Além de Rosa e Amado, travou diálogos com as obras de Euclides da Cunha, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna, Adélia Prado e Mário de Andrade, este a inspiração para o ensaio que expôs numa sala especial da XVIII Bienal de São Paulo, em 1985, baseado no livro O turista aprendiz.
Editora incansável de sua própria obra, Maureen lançou ainda dois volumes notáveis sobre o Parque Nacional do Xingu, ambos chamados Xingu, com os subtítulos Detalhes de uma cultura (1978) e Território tribal (1979). Também sobre a região, que visitou diversas vezes, codirigiu com Lúcio Kodato o documentário de longa-metragem Xingu/terra. A paixão pelo vídeo passou a absorvê-la cada vez mais a partir dos anos 1980, mas, nos anos 1990, Maureen ainda publicou livros com ensaios fotográficos de viagens à África, ao Líbano e ao Japão.
Em 1988, com Jacques Bisilliat, seu marido, e Antônio Marcos da Silva, foi convidada por Darcy Ribeiro para montar o acervo de arte popular latino-americana, origem do Pavilhão da Criatividade da Fundação Memorial da América Latina. Foi curadora do espaço de sua criação até 2011.
Em 2009, o IMS lançou a exposição e o livro Fotografias, uma visão panorâmica de sua carreira, com participação da própria Maureen Bisilliat na curadoria.
:: Fonte: IMS – biografia Maureen Bisilliat (acessado em 22.6.2016)

OBRAS DE MAUREEN BISILLIAT

:: Fim de rumo, terras altas, Urucúia; ensaio fotográfico de Maureen Bisilliat. [Fragmentos extraídos de Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa]. 1ª ed., cor. São Paulo: Gráficos Brunner, 1969.
:: A João Guimarães Rosa. [fotografia Maureen Bisilliat; textos João Guimarães Rosa]. São Paulo: Gráficos Brunner, 1969; 3ª ed., 1979.
:: Fotografias: Maureen Bisilliat. São Paulo, SP: Instituto Moreira Salles, 2009.

OUTRAS FONTES E REFERÊNCIAS DE PESQUISA
:: BOZIO, Maria Catarina Rabelo. O sertão imagético de João Guimarâes Rosa e Maureen Bisilliat: dez descrições. (Monografia Graduação em Estudos da Linguagem). Universidade Estadual de Campinas, UNICAMP, 2012. Disponível no link. (acessado em 22.6.2016)
:: Itaú Cultural – biografia (acessado em 22.6.2016).

JOÃO GUIMARÃES ROSA NESTE SITE

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© Pesquisa, seleção e organização: Elfi Kürten Fenske

 

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Jacques Henri Lartigue: o cotidiano francês no século 20   Leave a comment

 

Desde 1902, quando tinha oito anos de idade, até sua morte em 1986, Jacques Henri Lartigue manteve uma prolífica produção fotográfica, retratando o cotidiano francês em momentos variados que começam nas últimas décadas da Belle Époque e passam pelas transformações vividas na Europa ao longo do século 20. Sua notoriedade como fotógrafo, no entanto, foi constituída somente a partir dos anos 1950. No post de hoje, resgatamos sua trajetória.

 

 

 

 

Na infância, Lartigue fotografava desde viagens familiares até eventos esportivos da elite francesa. Carros, aviação e as invenções de seu irmão Maurice também eram temáticas frequentes da produção inicial do fotógrafo. À medida que crescia, Lartigue foi experimentando outras linguagens, como o desenho e a pintura, chegando a estudar por um breve período na Académie Julian, em Paris.

 

 

 

 

Foi com a pintura que Lartigue ganhou a vida nos turbulentos anos 1930 e 1940 na Europa. Na década de 1950, já com uma vasta trajetória como amador, a fotografia passou a lhe render os primeiros frutos profissionais. Seu nome ganhou reconhecimento internacional, no entanto, somente na década seguinte, após uma viagem para os Estados Unidos.

 

 

 

 

Com sua terceira esposa, em 1962, Lartigue foi a Los Angeles em um navio cargueiro. No caminho, visitou Nova York, onde encontrou-se com Charles Rado, fundador da agência Rapho, e John Szakowski, recém-empossado diretor do departamento de fotografia do MoMA. Impressionado com as imagens de Lartigue, Szakowski organizaria no ano seguinte uma exposição do fotógrafo – a primeira de Lartigue, que em 1963 completava 69 anos. A guinada ganhou ainda mais força após a publicação de uma foto sua na revista Life, em edição especial sobre a morte de John F. Kennedy.

 

 

 

 

Entre as principais exposições que se seguiram, destaque para a retrospectiva realizada em 1975 pelo Musée des Arts Décoratifs de Paris e para a mostra Bonjour Monsieur Lartigue, que ocupou o Grand Palais da capital francesa em 1980. Lartigue seguiu fotografando, pintando e escrevendo até falecer em 1986, em Nice, aos 92 anos. Como legado, deixou ao redor de 100 mil fotografias, sete mil páginas de diários e 1.500 pinturas.

Fonte: ESPM – http://foto.espm.br/index.php/referencias/jacques-henri-lartigue-o-cotidiano-frances-no-seculo-20/

Herbert G. Ponting: o fotógrafo da Expedição Terra Nova   Leave a comment

Em 1910, a Expedição Britânica-Antártica, conhecida popularmente como Expedição Terra Nova, saiu da Inglaterra capitaneada por Robert Falcon Scott (1868-1912). O objetivo era se tornar a primeira a chegar no inexplorado Pólo Sul. Quem competia por um lugar nos livros de história com Scott era o norueguês Roald Amundsen (1872-1928), que ganhou a disputa por um mês de diferença.

A expedição tinha objetivos adicionais, como pesquisa científica e exploração geográfica. Embora fosse fruto de iniciativa privada, tinha o apoio não-oficial do governo (que contribuiu com metade dos custos da expedição). Entre os cinco membros, um se destacava pelo afinco com o qual buscava produzir material sobre o desconhecido local em questão: tratava-se do fotógrafo britânico Herbert G. Ponting (1870-1935), que durante os 14 meses que passou na Antártida, produziu um vasto documento imagético, considerado até hoje um dos mais ricos da região.

Nascido em Whiltshire, Ponting se tornou banqueiro ao atingir a maioridade e, posteriormente, mudou-se para a Califórnia e investiu em uma fazenda de frutas. Após as duas empreitadas mal-sucedidas, migrou para a fotografia com o objetivo de salvar as finanças da família. Ironicamente, foi este ofício que o afastou dela. Depois de vencer diversos concursos fotográficos, foi contratado por uma empresa de fotografia para resenhar e dar opiniões sobre suas câmeras. A partir daí, iniciou suas expedições, fotografando no Extremo Oriente, no Sudeste Asiático e em países europeus.

Como membro da Expedição Terra Nova, Ponting produziu cerca de 1.700 fotografias. Além de clicar paisagens, vida animal e a rotina da tripulação, fez dezenas de retratos com grande esmero técnico e estético. Esse acervo está depositado no Scott Polar Research Institute, na Inglaterra. Em algumas imagens, é evidente o desconforto dos tripulantes ao posar para fotos em um ambiente tão gelado.

Enquanto na época novas e promissoras técnicas fotográficas avançavam com rapidez, Ponting escolheu para este trabalho um método da primeira metade do século anterior, o negativo de vidro. Além de sua familiaridade com o equipamento — e preferência estética pelos resultados —, os negativos de vidro eram viáveis até mesmo economicamente.

Ele deixou o Pólo Sul em fevereiro de 1912 por se considerar velho demais para aguentar mais um inverno antártico. Faleceu em 1935, em Londres, aos 65 anos. O restante da equipe morreu na viagem de volta.

Fonte: ESPM – http://foto.espm.br/index.php/referencias/herbert-g-ponting-o-fotografo-da-expedicao-terra-nova/

“Se eu pudesse contar uma história com palavras, não precisaria andar com uma câmera”, Lewis W. Hine   Leave a comment

Sociólogo por formação, o americano Lewis Wickes Hine encontrou na fotografia uma forma de fazer a diferença diante dos piores problemas sociais dos Estados Unidos do início do século XX. Se na época suas imagens ajudaram a criar diversas leis trabalhistas, foi apenas após sua morte que foi reconhecido, também, como um grande fotógrafo.

Já como professor na Escola de Cultura Ética de Nova Iorque,  Hine comprou sua primeira câmera, utilizando as fotografias como uma ferramenta pedagógica. A partir de 1905, adotou a prática como um meio de denunciar a miséria dos imigrandes europeus, expondo à opinião pública suas péssimas condições de trabalho. Na época, grande parte da mão de obra industrial norte-americana era composta por crianças. Seus registros ajudaram na criação e na aprovação da primeira lei nacional de trabalho infantil.

Em 1908, foi chamado para integrar o recém criado Comitê Nacional do Trabalho Infantil, deixando de lecionar para tornar-se detetive. Em um ano, viajou pelo interior do país e cobriu quase 20 mil quilômetros, em condições precárias de acomodação e higiene e sem grandes recompensas monetárias. Por ser ocasionalmente impedido de fazer seu trabalho pelos donos das fábricas, escondia a câmera e disfarçava-se de inspetor de incêndio, fingindo entrevistar as crianças enquanto clicava. Não utilizava artifícios e valorizava os ângulos frontais, já que tinha como principal objetivo capturar a expressão em seus rostos. Para isso, estava sempre no mesmo nível de seus objetos, normalmente centralizados com precisão. Ao se referir às próprias imagens, utilizava “cruas” como adjetivo — e a crítica chegou a dizer, certas vezes, que suas fotos não eram chocantes nem dramáticas o bastante. Este período de trabalho está publicado nos livros Child Labour in the Carolinas (1909) e Day Laborers Before Their Time (1909).

Antes disso, publicou Charities and the Commons (1908), que retratava a mão de obra abusiva utilizada nas construções de prédios. Provavelmente por conta desse trabalho foi chamado para documentar a construção do Empire State Building, já no início dos anos 1930. Muitas de suas mais famosas imagens estão nessa série, publicada em um livro intitulado Men at Work (1932).

Sua obra é considerada, hoje, um dos pilares da fotografia documental. Como explica o professor Paulo César Boni em projeto sobre a trajetória do fotodocumentarismo para a Universidade Estadual de Londrina, suas imagens transcendem o fotojornalismo: a foto tirada não era a reportagem em si, nem o fim do trabalho, era um meio para expor à opinião pública aquela realidade que não se vê.

Com dificuldade para ganhar dinheiro como fotógrafo, perdeu sua casa em janeiro de 1940 e morreu extremamente pobre 11 meses depois.

Fonte: ESPM – http://foto.espm.br/index.php/referencias/se-eu-pudesse-contar-uma-historia-com-palavras-nao-precisaria-andar-com-uma-camera-lewis-w-hine/

A Grande Depressão sob as lentes de Dorothea Lange   Leave a comment

Dorothea Lange (1895 – 1965) foi uma influente fotógrafa documental e fotojornalista norte-americana conhecida por seus retratos da Grande Depressão para a Farm Security Administration (FSA). Suas imagens ajudaram a humanizar as consequências da Crise de 1929 e influenciaram o desenvolvimento da fotografia documental.

Nascida na segunda geração de uma família de imigrantes alemães sob o sobrenome Margaretta Nutzhorn, Dorothea passou a usar o nome de solteira da mãe aos 12 anos, quando seu pai abandonou a família. Esse foi um dos dois incidentes traumáticos que marcaram sua infância. O outro foi a contração de Poliomielite aos sete anos, o que a deixou com a perna direita enfraquecida e a fez mancar pelo resto da vida.

Lange aprendeu fotografia com Clarence H. White na Columbia University de Nova Iorque e logo começou a trabalhar como aprendiz em diversos estúdios da cidade, como o Arnold Genthe. Em 1918, mudou-se para São Francisco, onde abriu seu bem sucedido estúdio de retratos e morou pelo resto de sua vida. Na época, casou-se com seu primeiro marido, o pintor Maynard Dixon, com quem teve dois filhos, Daniel e John.

Com a Crise de 1929 logo depois do nascimento de John, Lange tirou sua câmera do estúdio para clicar a situação das ruas. As imagens que fez dos desabrigados chamaram a atenção de outros fotógrafos, o que a levou a trabalhar na Ressettlement Administration (RA), depois chamada de Farm Security Administration (FSA), uma instituição criada com o objetivo de combater a pobreza rural, uma das principais consequências da Grande Depressão. Seu segundo marido, o professor de economia Paul Taylor, foi reponsável por politizá-la ainda mais.

De 1935 a 1939, Lange retratou para a FSA o sofrimento dos pobres e esquecidos, especialmente das famílias rurais deslocadas e dos trabalhadores imigrantes. Suas imagens eram distribuídas gratuitamente a jornais de todo o país, tornando-se fortemente representativas da época. A fotografia mais conhecida deste período é “Migrant Mother”, um dos mais icônicos registros da história da fotografia, que retrata uma imigrante chamada Florence Owens Thompson com três de seus sete filhos. A foto original original contava com a mão de Florence segurando um dos alicerces da barraca, mas a imagem foi retocada para que seu polegar fosse escondido. O dedo indicador permaneceu intacto e pode ser visto na parte inferior direita da imagem.

A fotógrafa foi premiada em 1941 fom uma bolsa da Fundação Guggenheim para excelência em fotografia, que abandonou para registrar a evacuação forçada de japoneses americanos a campos de realojamento após o ataque a Pearl Harbor. Para muitos, suas imagens das crianças nipo-americanas jurando lealdade à bandeira antes de serem enviadas a esses campos são uma assustadora lembrança de uma antiga política: deter pessoas que não cometeram crimes, e sem lhes oferecer qualquer apoio. As fotografias desse episódio, em especial do campo de Manzanar, foram tão obviamente críticas que o exército as confiscou. Hoje elas estão disponíveis na divisão de fotografias do site do arquivo nacional do país e na Biblioteca Bancroft da Universidade da Califórnia.

Nas últimas décadas de sua vida, Lange sofreu de diversos problemas de saúde. Faleceu em 1965. Em 2006, uma escola foi batizada em sua honra em Nipomo, na Califórnia, perto do local onde foi clicada “Migrant Mother”

Fonte: ESPM – http://foto.espm.br/index.php/sem-categoria/a-grande-depressao-sob-as-lentes-de-dorothea-lange/

A Grande Depressão sob as lentes de Dorothea Lange   Leave a comment

Dorothea Lange (1895 – 1965) foi uma influente fotógrafa documental e fotojornalista norte-americana conhecida por seus retratos da Grande Depressão para a Farm Security Administration (FSA). Suas imagens ajudaram a humanizar as consequências da Crise de 1929 e influenciaram o desenvolvimento da fotografia documental.

Children of Oklahoma drought refugee in migratory camp, 1936. Foto: Dorothea Lange.

Foto de Dorothea Lange. One_of_chris_adolphs_younger_children_1939

One of Chris Adolph’s younger children, 1939. Foto: Dorothea Lange.

Nascida na segunda geração de uma família de imigrantes alemães sob o sobrenome Margaretta Nutzhorn, Dorothea passou a usar o nome de solteira da mãe aos 12 anos, quando seu pai abandonou a família. Esse foi um dos dois incidentes traumáticos que marcaram sua infância. O outro foi a contração de Poliomielite aos sete anos, o que a deixou com a perna direita enfraquecida e a fez mancar pelo resto da vida.

Foto de Dorothea Lange. Farmers_who_have_bought_machinery_cooperatively_1939

Farmers who have bought machinery cooperatively, 1939. Foto: Dorothea Lange.
Foto de Dorothea Lange. Country_store_1939
Country Store, 1939. Foto: Dorothea Lange.

Lange aprendeu fotografia com Clarence H. White na Columbia University de Nova Iorque e logo começou a trabalhar como aprendiz em diversos estúdios da cidade, como o Arnold Genthe. Em 1918, mudou-se para São Francisco, onde abriu seu bem sucedido estúdio de retratos e morou pelo resto de sua vida. Na época, casou-se com seu primeiro marido, o pintor Maynard Dixon, com quem teve dois filhos, Daniel e John.

Mother and child of Arkansas flood refugee family, 1937. Foto: Dorothea Lange.

Mother and child of Arkansas flood refugee family, 1937. Foto: Dorothea Lange.

Grandfather and Grandson, Manzanar Japanese Concentration Camp, 1942. Foto: Dorothea Lange.

Grandfather and Grandson, Manzanar Japanese Concentration Camp, 1942. Foto: Dorothea Lange.

Com a Crise de 1929 logo depois do nascimento de John, Lange tirou sua câmera do estúdio para clicar a situação das ruas. As imagens que fez dos desabrigados chamaram a atenção de outros fotógrafos, o que a levou a trabalhar na Ressettlement Administration (RA), depois chamada de Farm S

ecurity Administration (FSA), uma instituição criada com o objetivo de combater a pobreza rural, uma das principais consequências da Grande Depressão. Seu segundo marido, o professor de economia Paul Taylor, foi reponsável por politizá-la ainda mais.

Resettled farm child, 1935. Foto: Dorothea Lange.

Resettled farm child, 1935. Foto: Dorothea Lange.

Against the wall, 1934. Foto: Dorothea Lange.

Against the wall, 1934. Foto: Dorothea Lange.

De 1935 a 1939, Lange retratou para a FSA o sofrimento dos pobres e esquecidos, especialmente das famílias rurais deslocadas e dos trabalhadores imigrantes. Suas imagens eram distribuídas gratuitamente a jornais de todo o país, tornando-se fortemente representativas da época. A fotografia mais conhecida deste período é “Migrant Mother”, um dos mais icônicos registros da história da fotografia, que retrata uma imigrante chamada Florence Owens Thompson com três de seus sete filhos. A foto original original contava com a mão de Florence segurando um dos alicerces da barraca, mas a imagem foi retocada para que seu polegar fosse escondido. O dedo indicador permaneceu intacto e pode ser visto na parte inferior direita da imagem.

Migrant Mother, 1936. Foto: Dorothea Lange.

Migrant Mother, 1936. Foto: Dorothea Lange.

Mother and baby of family on the road, 1939. Foto: Dorothea Lange.

A fotógrafa foi premiada em 1941 com uma bolsa da Fundação Guggenheim para excelência em fotografia, que abandonou para registrar a evacuação forçada de japoneses americanos a campos de realojamento após o ataque a Pearl Harbor. Para muitos, suas imagens das crianças nipo-americanas jurando lealdade à bandeira antes de serem enviadas a esses campos são uma assustadora lembrança de uma antiga política: deter pessoas que não cometeram crimes, e sem lhes oferecer qualquer apoio. As fotografias desse episódio, em especial do campo de Manzanar, foram tão obviamente críticas que o exército as confiscou. Hoje elas estão disponíveis na divisão de fotografias do site do arquivo nacional do país e na Biblioteca Bancroft da Universidade da Califórnia.

Foto de Dorothea Lange. Migratory_mexican_field_workers_home_next_to_pea_field_1937

Migratory mexican field workers home, 1937. Foto: Dorothea Lange.

Foto de Dorothea Lange. Cheap_auto_camp_housing_for_citrus_workers_1940

Cheap auto camp housing for citrus workers, 1940. Foto: Dorothea Lange.

Nas últimas décadas de sua vida, Lange sofreu de diversos problemas de saúde. Faleceu em 1965. Em 2006, uma escola foi batizada em sua honra em Nipomo, na Califórnia, perto do local onde foi clicada “Migrant Mother”.

Fonte: Blog do Centro de Fotografia ESPM – http://foto.espm.br/index.php/index.php/referencias/a-grande-depressao-sob-as-lentes-de-dorothea-lange/

José Caldas… Olhar, atitude e composição   Leave a comment

© Foto de José Caldas. Vila da Felicidade. Manaus, 2003.

por Fernando Rabelo

“A foto que remete aos contornos do mapa brasileiro é de autoria do fotógrafo sergipano José Caldas, reconhecido como um dos mais importantes documentaristas da natureza brasileira em atividade. A cena foi registrada por ele, sem nenhuma interferência, ao visitar a Vila da Felicidade, em Manaus. José Caldas afirma que não é montagem: “Eu vi a moldura com a forma do Brasil e aguardei algumas horas para captar um fundo surpreendente”.”

Fonte: Rede social de Fernando Rabelo
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